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Só os três

Mais um disco gestado no Centro da Terra chega aos ouvidos públicos nesta quinta-feira, quando Thiago França, Rômulo Fróes e Rodrigo Campos mostram seu primeiro álbum em trio, 03 na Ribanceira. Como o recém-lançado disco homônimo do Cidadão Instigado e o Big Buraco de Jadsa, o disco composto mutuamente pelos velhos compadres nasceu da tela em branco que se propuseram nas quatro segundas-feiras de abril de 2024, quando trouxeram rascunhos de canções para transformá-los em uma coleção própria em noites que tiveram participações de outros músicos, como Anna Vis, Marcelo Cabral, Victória dos Santos, Fernanda Sangirardi, Bia Falleiros e Juçara Marçal, em apresentações com títulos como Samba de Tablado, Sem Paralelo e Coisas Nossas. Da temporada ao disco foram decantadas nove canções tocadas e cantadas quase sempre pelos três, a não ser em duas canções, “Mora na Memória”, que traz Clima e Juliana Perdigão, e a faixa que encerra o disco, “Um Rio Sem Rio”, com Verônica Ferriani. “O grande lance ainda é o processo, estar junto, tudo que a gente fala nos almoços e cafés, nenhuma música sai ilesa sem se transformar e nenhuma idéia passa batido”, me explica Thiago, que antecipa a primeira música do disco, “Um, Dois, Três, Você” em primeira mão para o Trabalho Sujo. “Acho que no começo, há quase vinte anos quando começamos as nossas colaborações, a gente até tentava chegar no estúdio com os arranjos mais prontos trazidos de casa, mas rápido a gente entendeu que o grande lance era soltar uma faísca e ver como os outros iam contribuir e isso fez a gente criar um som nosso, uma estética própria.” E esse é o grande feito do disco: forjar essa estética, entre o samba-canção, o pagode e a música contemporânea paulistana tão característica das tantas formações que os três já trabalharam desde o início deste século:

Ouça abaixo:  

Arte maiúscula

Um salto ornamental no escuro – assim foi a apresentação ▶◀ (Dois Triângulos), que o casal carioca Marcela e Zozio, mostrou nesta terça-feira no Centro da Terra, quando optou por uma versão minimalista de seu grupo Kartas. Conhecido por invadir o espaço entre a palavra e a música – a cargo respectivo de cada uma de suas metades, Marcela com o texto e Zozio com o som -, o grupo sempre contou com participações extras para expandir seu próprio território artístico, transformando suas apresentações em performances de criação coletiva. Mas nesta apresentação de terça, reduziram-se apenas à própria dupla inicial, num espetáculo em que um incursionou pelo território do outro, com Marcela entre flautas e um piano de brinquedo enquanto desfilava pelo texto falado, enquanto Zozio, para além de seu instrumento-base (a bateria) e os violões, que deram um toque blues à performance, que também declamou e bradou versos, ambos transcorrendo o percurso do processo criativo frente ao público. Este, calado por toda apresentação, só se manifestou quando os dois vieram à frente e Marcela suspirou um sorriso final, indicando que a apresentação havia terminado. As palmas no encerramento tornaram-se um grande “parabéns a você” à filha do casal, que estava presenta acompanhando os dois na coxia, que estendeu-se ao recém-reeleito presidente Lula, outro aniversariante desta terça, como os dois também lembraram ao final. Arte com “a” maiúsculo – mesma dimensão do alívio que atravessou a apresentação, por todos – artistas e audiência – estarem cientes do pesadelo que conseguimos empurrar de volta para o esgoto no domingo passado.

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Kartas: ▶◀

Muita satisfação receber mais uma vez a dupla carioca Kartas mais uma vez no palco do Centro da Terra, que desta vez vem em sua essência, quando a performer e poeta Marcela Mara e o multinstrumentista Zozio, mostram o espetáculo ▶◀ (Dois Triângulos), em que abrem seu processo criativo a dois. Assim, voz, instrumentos, silêncios, ruídos e sons ambientes estão abertos para os dois, que transformam o palco em laboratório nesta configuração minimalista. São duas pesquisas criativas que se encontram para construir uma terceira. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Desaniversário | 24.10.2026

O fim de semana está vindo e vamos extravasar essa tensão toda no sábado em mais uma edição da Desaniversário, quando nos reunimos mais uma vez no Bubu para dançar as músicas que a gente gosta! O Bubu fica na marquise do estádio do Pacaembu (Praça Charles Miller, s/nº) e a festa começa cedo (19h) e acaba cedo (meia-noite) pra gente estar inteiro no domingo pra livrar o Brasil do bolsonarismo! Vem dançar com a gente!

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Pista sentimental

Bonito ver May Manão materializar seu novo projeto solo – o trio que batizou com o próprio sobrenome – depois do fim de sua banda anterior, a Crime Caqui. Ela já havia flertado com a eletrônica lo-fi em seu outro projeto solo (a Tôrta), mas quando começou a pensar neste capítulo seguinte de sua carreira musical, chamou os compadres Beta Cardoso e Rodrigo Florentino para entrar de cabeça numa eletrônica que pudesse ter o lado mais indie da chillwave e do bedroom pop, mas que ao mesmo tempo conversasse com a música de pista, indo da emoção pesada do trip hop aos beats do drum’n’bass, com ênfase maior na house music que mais que tudo batizava o espetáculo apresentado, Drama House. Tocando sob uma obra surrealista de Felipe Milani e as luzes tensas e hipnóticas de Clara Caramez, o trio só pecou pela curta duração da noite, justificável por ainda estar traduzindo as primeiras – e belas – composições para o palco. Com uma faixa contando com a participação do cantor Centauro, May ainda pôs o público de pé em frente às cadeiras do teatro, fazendo sua pista de dança sentimental atravessar a emoção dos presentes. Agora foi!

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Manão: Drama House

Muito prazer receber no palco do Centro da Terra, a nova encarnação musical da artista May Manão, que depois da banda Crime Caqui e do projeto solo Tôrta, dá início a uma nova fase em que apresenta-se apenas com seu sobrenome. E acompanhada de Beta Cardoso (sintetizadores) e Rodrigo Florentino (nos beats e vídeos), mostra sua Drama House, entre a canção e a música eletrônica, numa apresentação que ainda tem cenografia de Felipe Milani e luz de Clara Caramez. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Uma nova dimensão a partir de um guardanapo

O que Juliana Perdigão está fazendo no Centro da Terra em sua temporada Em Caráter Experimental é de uma riqueza ímpar na cena musical contemporânea – e ela mostra que é uma artista maiúscula ao transcender a criação musical para além da música. Ao reduzir suas parcerias em duplas nesta leva de apresentações, ela primeiro transformou o teatro em uma pista de dança ao lado de Dudu Tsuda e depois transcendeu imagem e sim em um mesmo vetor criativo com a artista visual Ciça Lucchesi. Nesta segunda-feira, ela descortinou outra fronteira, desta vez estritamente musical, quando chamou outro conterrâneo mineiro – o violonista e cientista analógico Gustavo Infante, que hoje reside em Campinas – para desbravar um território emocional descoberto num pacote de guardanapos! Antes de começar a viagem, Juper explicou que ao comprar a resma de papel num mercado na Liberdade, reparou que havia, na estampa em alto relevo de cada guardanapo, um texto em ideogramas que fez sua curiosidade acionar o tradutor do Google, que revelou uma série de poemas milenares chineses da época da dinastia Sung. Daí o título da apresentação: Sung Songs, que brinca inclusive com as duas formas que a dinastia é apresentada em nosso alfabeto. Pilotando gravadores de fita cassete em que dlsparavam loops físicos, os dois pintaram uma longa onda ambient com texturas pré-gravadas, mescladas com os sopros de Juper e o violão de Gustavo, além do canto mineiro dos dois, melódico e melancólico, descrevendo situações corriqueiras e paisagens mentais que transportaram o público a uma dimensão particular, descoberta num encontro de um guardanapo com um tradutor eletrônico – e colorida pela intensidade e delicadeza luzes e vídeos derretidos por Gabriela Luiza. Uma noite mágica.

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Orgânico e ultraprocessado

Juçara Marçal e Thais Nicodemo se reencontraram no palco, agora no Sesc Vila Mariana, para mostrar Dessemelhantes, disco que fizeram em dupla este ano depois de forjar o conceito em algumas apresentações ao vivo. As duas começaram a trabalhar juntas em 2018, quando fizeram o espetáculo em homenagem à cantora francesa Brigitte Fontaine ao lado de KIko Dinucci. Anos depois voltaram a se encontrar para dar corda àquele encontro com um novo repertório, desta vez contemporâneo e brasileiro. Mas o que poderia ser apenas um show convencional de piano e voz torna-se um espetáculo entre a música erudita e a música de vanguarda quando ambas investigam seus instrumentos com intervenções externas: Thaís prepara seu piano com pedras e objetos que distorçam o som das cordas, enquanto Juçara, inspirada por seu segundo disco Delta Estácio Blues, entrega-se à distorção eletrônica, alterando a própria voz ou criando camadas etéreas e sintéticas – ou como a própria Ju disse ao final do show, a Thaís com os orgânicos e ela com os ultraprocessados. Entre canções de compadres como Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Rômulo Fróes, Guilherme Held, Eduardo Climachauska, Kauê Batista, Negro Leo, Rica Amabis e o próprio Kiko, ainda acenaram para a inspiração francesa da musa Fontaine em “Il Se Passe des Choses” e fizeram vários comentários sobre a situação política atual – desde o figurino todo em vermelho. A apresentação terminou com a música que batiza o disco, composta por Juçara e Thiago França, que veio após um pedido de bis da plateia iniciado com um coro de “olê olê olê olá, Lula, Lula”. Sintomático.

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