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Tudo bem, Lauiz?

Quem também lança disco esta semana é o incansável Lauiz, tecladista e programador dos Pelados que solta seu terceiro álbum, Comece por Aqui, nesta quarta-feira. Seu trabalho mais biográfico, é também o disco que mais traz referências estrangeiras – ele cita Ween, Nine Inch Nails, David Bowie “e até uma Lana Del Rey no meio”, brinca. “É um disco bem pessoal, meio frustrado com o mundo, que levou bem mais tempo pra gravar, é mais longo e mais elaborado e eu me sinto uma pessoa diferente, por mais que tente usar tudo que fiz pra chegar aqui. Afinal, como foi que eu vim parar aqui?”, continua o produtor. “Queria um disco que soasse roubado, como se nunca fosse pra ser lançado pra mais ninguém além de mim: misturo áudios e vídeos velhos no Youtube, é meio PC music e uma versão perturbada dessa estética alt-pop moderna brasileira”. Isso acaba se refletindo na capa: “Tento botar essa ironia e arrependimento capturados em um instante como alguém caindo do telhado e que joga um pouco de sangue falso pra chamar a atenção.” O disco tem participações de seus colegas de banda (Helena Cruz toca em “Comece por Aqui”, Theo Ceccato toca em “Linus Torvalds”, Vincente Tassara em “Nada Direito” e Manu Julian em “Estados Unidos”), além das presenças de Ricardinho Tubarão, Lucas Filmes, Pedro Acost (da banda Bella e o Olmo da Bruxa) e o primo de Lauiz João Barisbe, que toca sopros na faixa “Na Lagoa”, que ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo.

Ouça abaixo:  

A cara do invisível

Eis que finalmente Animal Invisível estará entre nós essa semana. O projeto pandêmico do guitarrista gaúcho Guri Assis Brasil que tornou-se uma usina de groove tropical com três singles lançados (“Dendê”, “Didi” e “Que Delícia é Viver”) vê a luz do dia na próxima sexta-feira com a bênção do selo nova-iorquino Nublu – e Guri antecipa a capa em primeira mão para o Trabalho Sujo. “A ideia era brincar com algo que fosse ‘invisível’ mas que estivesse ali o tempo todo, como foi o vírus que que destruiu a vida de tanta gente na pandemia”, explica o guitarrista, contando que a capa foi assinada por seu chapa Rafa Rocha que cuida de toda a parte visual do trabalho. Guri reforça que apesar do período sombrio que o disco foi gestado, ele vem como uma força antagonista a isso. “Ele é solar, dançante, bem distante da tristeza e angústia desses tempos pandêmicos e acredito que seja por isso que o Rafa escolheu aquela tonalidade de azul”, continua o guitarrista, explicando o vidro canelado usado para que seu retrato não tivesse definição, rosto ou silhueta, “e também brincamos de escrever o nome do projeto em japonês, já sou admirador profundo desta cultura e sempre quis ter algo assim. Uma idéia simples, que dialoga demais com o disco.” Rafa conta que a liberdade dada pelo camarada ampliou muito a ideia do projeto, pensando em como dar forma à ideia do invisível, “através de distorções reais, explorando lentes, vidros e superfícies translúcidas dentro do estúdio, criando imagens que se fragmentam e escapam do esperado”, explica o artista, reforçando a natureza não digital da capa. “Esse jogo entre aparecer e desaparecer, entre controle e acaso, guiou todo o processo”, continua, “por isso escolhemos um caminho físico e analógico, deixando espaço para que a imagem acontecesse de verdade, com todas as imperfeições e surpresas que vêm junto com isso.” O disco será lançado na próxima sexta e tem inspiração em viagens instrumentais de maestros brasileiros como Arthur Verocai, Marcos Valle, João Donato, Banda Black Rio e Moacir Santos, incluindo um quarteto de cordas.

Rolling Stones às baratas

Desde o começo do ano corre solto o boato que os Rolling Stones estariam preparando mais um novo álbum para começar mais uma nova turnê no meio deste ano e há algumas semanas algumas pistas começaram a aparecer – tanto na internet quanto nas ruas inglesas, em cartazes espalhados com um QR-code – ligando o grupo a uma banda chamada The Cockroaches (“As Baratas”, em inglês). O nome já foi usado pelos Stones em 1977, quando, promovendo o disco que haviam lançado um ano antes (o ótimo Black & Blue), se apresentaram após o show da banda canadense April Wine com este pseudônimo no clube El Mocambo, com capacidade de apenas 300 pessoas, em Toronto, no Canadá (show que foi lançado pelo grupo como o disco ao vivo El Mocambo 1977, em 2022). O QR-code dos cartazes levava para o site thecockroaches.com que, além de vender uma camiseta com a pergunta “WHO THE FUCK ARE THE COCKROACHES?” no mesmo padrão da camiseta que o guitarrista Keith Richards usava nos anos 70 para tirar onda com o vocalista Mick Jagger, também anunciava que no sábado haveria uma revelação – esta veio na forma de coordenadas geográficas em que era possível encontrar um automaticamente raro vinil da banda em questão, nada menos que os próprios Stones com um single que, pelo que se consta, chama-se “Rough and Twisted”. É uma música no padrão clássico do grupo, mostrando-o afiado mesmo aos 64 anos de carreira. Ainda não há informações sobre o lançamento oficial do single, sobre o novo disco ou sobre a nova turnê. Mas é questão de tempo…

Ouça-o abaixo:  

Bruce Springsteen (e Tom Morello) ♥ Prince

No último dia do mês passado, Bruce Springsteen deu início à sua nova turnê pelos Estados Unidos e escolheu a dedo a cidade inicial: a mesma Minneapolis que viu no primeiro mês deste ano, agentes da milícia de Donald Trump contra imigrantes matar dois inocentes sem nenhum motivo. Bruce, que tornou-se um dos artistas mais ativos contra o atual presidente dos EUA, não apenas participou de protestos e lançou uma música contra a infame ICE (“Streets of Minneapolis”), como transformou sua nova turnê numa contínua manifestação contra o déspota estadunidense. Batizada de Land of Hope and Dreams, a turnê conta com o ex-Rage Against the Machine Tom Morello (outro forte antagonista de Trump no mundo da música) como show de abertura e, em sua primeira noite, fez várias versões para músicas alheias, como sua reverência à Patti Smith (em “Because the Night”), e outras que confrontam o belicismo dos EUA, como “Chimes of Freedom” de Bob Dylan e “War” dos Temptations, que abriu a noite. Mas o ápice do show foi quando chamou Morello ao palco para celebrar o músico nativo mais importante daquela cidade, ao tocar “Purple Rain” do Prince pela primeira vez em dez anos. “Para o maestro!”, cumprimentou o público ao entoar os primeiros acordes em sua guitarra. Emocionante

Assista abaixo:  

Suspiria de volta aos cinemas!

Um dos maiores clássicos do cinema de horror italiano e a obra-prima do mestre Dario Argento volta às telonas em versão restaurada em 4K. Suspiria, que completará 50 anos no ano que vem, é o melhor exemplo do terror giallo, gênero lapidado pelo gênio precoce italiano que, depois de explorar o suspense hitchcockiano em três filmes notáveis (O Pássaro das Plumas de Cristal de 1970, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Azul, ambos de 1971), passa a trabalhar com o horror gore, mostrando mortes trágicas e gráficas com cores saturadas, o que se tornou uma característica deste novo formato, iniciado com o ótimo Profondo Rosso (título que explicita seu novo apreço pelas cores – “vermelho escuro” em italiano, que no Brasil saiu como Prelúdio para Matar) de 1975, seguido por Suspiria, que a princípio parece um filme B sobre uma suspeita uma escola de balé que revela-se um antro de bruxas, mas que provoca o espectador justamente por parecer uma película de baixo orçamento (e falado em inglês – mal dublado -, embora apenas a protagonista Jessica Harper originalmente fale esse idioma). Sem contar a trilha sonora absurda do grupo prog italiano Goblin, uma das melhores trilhas de terror já feitas. Suspira chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de abril, mas no dia 17 o CineSesc aproveita a nova versão para lançar o Ciclo Dario Argento, que além do filme de 1977 ainda exibirá O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas, Prelúdio para Matar, Tenebre (de 1982), Phenomena (de 1985) e Terror na Ópera (de 1987). O relançamento também trará um mimo exclusivo para os fãs, quando o filme será lançado pela primeira vez no país, acredite, em VHS, em uma edição que contará com apenas 100 cópias e estará à venda apenas nas lojas FAMDVD, The Originals e Bazani Geek Store. Imperdível!

A volta do Buraka Som Sistema!

O clássico grupo português Buraka Som Sistema anunciou seu retorno às atividades no meio do ano passado, quando disseram que fariam o primeiro show em dez anos no festival Nos Alive, na capital de seu país, no dia 11 de julho deste ano. Apesar de nascido em Portugal, o grupo, que tornou o gênero angola kuduro uma sensação global, é formado por integrantes de diversos países e acaba de lançar “Puro Mambo”, single que marca a volta com sua formação clássica do longo hiato iniciado em 2016: o angolano Kalaf Epalanga, hoje incensado escritor que antes rimava no grupo com seu outro sobrenome, Kalaf Ângelo; o português João Barbosa, mais conhecido como Branko; a cearense Blaya, nascida Karla Rodrigues, que começou como dançarina mas logo passou a cantar; o cubano criado em Angola Andro Carvalho, que tornou-se conhecido como Conductor; e o português Rui Pité, que apresenta-se como Riot. “Puro Mambo”, lançado nesta sexta, é o início de uma série de celebrações ao redor do grupo: além de ser a primeira música lançada em doze anos e de marcar a volta aos palcos dez anos depois do último show, também comemora os 20 anos da gravadora Enchufada, criada por eles mesmos pra lançar seus próprios discos. E o show em Portugal não será único – e eles já estão anunciando shows em outros países. Será que chega ao Brasil?

Assista ao clipe abaixo:  

Quem quer mais Mayara, Iara e Dimitria?

Falei outro dia do novo grupo pernambucano Mayara Iara Dimitria e elas liberaram em primeira mão para o Trabalho Sujo a íntegra da live que gravaram no Estúdio Casona, no Recife. Entre a psicodelia, o experimental e o indie rock, o trio formado por Iara Adeodato (guitarra), Mayara (synth) e Dimitria (bateria) é o primeiro lançamento do novo selo Precarian Tapes, do Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins. Elas já estão marcando mais shows e devem começar a rodar pelo Brasil em breve…

Confira abaixo:  

Afrika Bambaataa (1957-2026)

Pioneiro do hip hop, Afrika Bambaataa, que morreu nesta quinta-feira, foi um dos pilares da fundação desta cultura que mudou a cara do final do século 20 e depois ajudou a expandir seus horizontes para além das periferias de Nova York ao cruzá-la com a música eletrônica. Mas as acusações de abuso de menores que surgiram nos últimos dez anos de sua vida destruíram sua reputação. Escrevi sobre sua ascensão e queda em mais uma colaboração para o Toca UOL.  

Wedding Present ♥ Pavement

Houve um período entre os anos 80 e os anos 90, no final do século passado, que a música pop que dominava as paradas de sucesso pelo mundo começava a parecer cada vez mais artificial e distante da vida das pessoas, fazendo com que vários novos artistas buscassem outro tipo de som para fugir dos clichês que dominavam as rádios da época – e nessas buscas, encontravam outros artistas iniciantes com as mesmas frustrações. Antes do indie inglês explodir no britpop, aquela cena musical buscava expandir suas fronteiras misturando melodia e ruído, algo sintetizado na clássica fita C86, que revelou uma nova safra de bandas britânicas em 1986 que, mais tarde, mudaria o pop daquela ilha. E entre nomes como o Primal Scream, os Pastels, os Soup Dragons, os Shop Assistants e o McCarthy (a semente do Stereolab), estava o Wedding Present, que três anos depois lançaria o clássico álbum Bizarro. Na época deste disco, o baixista da banda, Keith Gregory, foi para os EUA e voltou com alguns discos de bandas desconhecidas e escolheu a música “Box Elder”, de uma delas para incluir em seus shows. A faixa era uma das músicas do primeiro lançamento de uma banda completamente desconhecida, o EP Slay Tracks (1933-1969), de um grupo chamado Pavement. A versão chamou atenção do histórico radialista inglês John Peel, que, curioso como só ele, foi atrás da tal banda e ajudou-a a ser mais conhecida para além de seu grupo de amigos em Nova York. A versão do Wedding Present para “Box Elder” depois foi incluída na edição em CD do disco Bizarro e muitos achavam que, quando o Pavement começou a chamar atenção do público em seu país, eles é que estavam tocando uma música da banda inglesa. Para lembrar esse impulso inicial a uma das bandas mais importantes do indie rock, o Wedding Present voltou a incluir a faixa do Pavement no repertório da turnê que acabou de começar a fazer pelos Estados Unidos.

Assista abaixo, quando emendam “Box Elder” com sua ótima “Kennedy”, no show que fizeram na quarta passada, em Cambridge:  

Frango acústico

Vim para Brasília discotecar no Night Lab, projeto mensal realizado no antigo Touring da cidade (quem lembra?) que agora chama-se Sesi Lab e tem a curadoria de Roberta Martinelli, e calhou de me apresentar no mesmo dia da Ana Frango Elétrico, de quem acabei de ver um show impecável no Sesc Pinheiros. Mas diferente do show de São Paulo, esse foi sem banda e Ana encarou o público apenas empunhando um violão (e à frente das projeções de sua companheira Maria Cau Levy, projetando grafismos e vídeos em baixa definição num telão imenso), numa apresentação que, sabendo que estava cercada de um público fanático, trouxe várias músicas de seu próximo álbum, que ainda não tem nome nem previsão de lançamento. E mesmo sem conhecer as quatro músicas novas, o público que lotou o Sesi Lab a acompanhava deslumbrado, repetindo inclusive o refrão de “O Silêncio é o Barulho da Noite”, parceria inédita dela com Rômulo Froes e Tuca Monteiro. Mas ela não ficou só nas novidades e encantou o público com canções de seus três discos, além das mesmas versões alheias que trouxe no show que vi em São Paulo: “O Leão e o Asno” do Vovô Bebê e “Cérebro Eletrônico”, do Gilberto Gil. E embora o público cantasse tudo junto, Ana lamentava ter feito o show sozinha, exagerando que aquela era a última vez que ela tocava violão para mais de trinta pessoas. Autocrítica com excesso de modéstia, ela ficou mais tensa ainda quando acabou a bateria do violão, o que fez ela aproximar o instrumento do microfone e chegar ainda mais perto do público, que não parava de gritar. Íntimo e intenso.

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