Trabalho Sujo - Home

Veras em um novo patamar

Conferi há pouco tempo o último show do primeiro disco do Vera Fischer Era Clubber em São Paulo e nesta quinta vi o primeiro show do segundo disco do quarteto carioca, Veras II. E ao comparar discos e shows é nítida a evolução nos dois casos: se em disco, soam ainda mais pesados e dance ao mesmo tempo que no primeiro disco, no show a banda sobe tudo para este novo patamar. E no show com luzes precisas de Mau Schramm, que transformou o Sesc Avenida Paulista do início da noite numa balada de madrugada que encarna o aura da banda. No palco, as quatro carregam cada uma um elemento de sua sonoridade: a baixista Malu ergue o peso e o groove quadrado do pós-punk, a maestra eletrônica Pek0 traz os beats eletrônicos da pista de dança, os teclados de Vickluz flertam com a darkwave, o rock gótico e o tecnopop dos anos 80, enquanto Crystal é o rosto – e corpo e o carisma – desta entidade noturna não-binária, transformando as canções numa performance física em que seu rosto transfigura-se em diferentes emoções, às vezes paradoxais, em expressões faciais – ela carrega êxtase, pânico, torpor, loucura, ressaca, segredos, cansaço, alívio, gozo e delírio como se vivesse todas estas sensações ao mesmo tempo. Seu corpo, por sua vez, induz todos ao transe dance que contagiou o público que esgotou os ingressos da noite – e vestida com a camisa vermelha de Lula Presidente, ainda fez várias menções ao momento histórico que vivemos. Além de tocar todas as músicas do disco novo pela primeira vez ao vivo, a banda ainda contou com participações especialíssimas, quando trouxe primeiro Kiko Dinucci para dividir “Amor de Anjo” (e a guitarra de Kiko, ainda mais afiada por motivos de Medusa, abriu uma outra camada, entre a no wave e o noise, na sonoridade da banda), depois o produtor dos dois discos Augusto Feres subiu para tocar guitarra em “Vesúvio” e encerrando a noite com a presença da dupla Katy da Voz e as Abusadas, quando Katy e Palladino Proibida subiram no palco para transbordar ainda mais o clima quente da noite – e Crystal ficou só de biquíni na música escolhida para o encerramento, “Calcinha Gozada”. Mas o povo pediu bis e elas voltaram para o palco com os quatro convivas da noite, para uma versão barra pesadíssima da música-tema do grupo. Showzão.

#verafischereraclubber #sescavenidapaulista #trabalhosujo2026shows 247

Gang of Four no Brasil!

Uma das bandas mais importantes do pós-punk acaba de marcar mais duas passagens pelo Brasil no ano que vem, quando o Gang of Four reaparece por aqui para tocar em São Paulo (dia 13 de março, no Cine Joia em São Paulo) e dia 14 (no Cine Lido, em Curitiba). É a quarta vez que o grupo vem ao país (todas após sua volta em 2004, quando o grupo ressurgiu com a mesma formação depois do fim oficial em 1983): da primeira vez, 2006, dividiu uma improvável turnê com os Cardigans, já veio sem o baterista original, Hugo Burnham, substituído por Mark Heaney. A outra vez, em 2011, tocaram de graça no Parque do Ipiranga no festival da Cultura Inglesa, em uma das edições em que fui curador do evento. Desta vez, só o guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King faziam parte da formação original. A última vinda do grupo, em 2018, quando tocaram no Sesc Pompeia, já marca a fase dos anos 2010 do grupo, quando Gill seguiu tocando o grupo como único integrante original. Quase dois anos após a morte de Gill, no início de 2020, King e Burnham retomaram o grupo com o slint David Pajo na guitarra e a baixista Sara Lee, que entrou no lugar do baixista original Dave Allen ainda na primeira fase da banda, em 1981. Mas depois de alguns shows em 2021, voltaram à atividade, inclusive gravando músicas novas, em 2025, com Gail Greenwood (que tocava no Belly e no L7) no baixo e Ted Leo (líder dos Ted Leo & The Pharmacists) na guitarra. É esta formação que passa por aqui no ano que vem, numa turnê pela América do Sul que ainda tem passagens por Buenos Aires (dia 16, no Uniclub) e Santiago (18, no Metrónomo). Os ingressos já estão à venda.  

As fronteiras da imagem e do som

Depois de transformar o palco do Centro da Terra em pista de dança, Juliana Perdigão misturou música e imagem com sua comadre Ciça Lucchesi, com quem já fez várias apresentações. Mas nesta terça-feira, segunda noite de sua temporada Em Caráter Experimental, elas ressuscitaram o projeto Versom, em que ambas mesclam suas disciplinas específicas num espetáculo sinestésico de altíssimo nível. Mais do que simplesmente improvisar conjuntamente, elas apresentaram módulos de som e imagem que funcionavam, ao mesmo tempo, como clipe e canção – muitas vezes distanciando-se do formato tradicional desta última para trabalhar novas criações em durações de tempo específica, mostrando possibilidades diferentes para o casamento da música com o cinema. A imagem era projetada na tela de cinema do teatro, enquanto as duas, às vistas do público na coxia da primeira fila, iam trabalhando com seus instrumentos o que víamos na tela, que passava de fotos de São Paulo a abstrações geométricas. O ponto alto da apresentação foi quando Juper subiu ao palco para tocar “Crack pra Ninar” de Kiko Dinucci seu clarinete em frente à tela, enquanto Ciça fazia um holofote às avessas com a imagem, antes de entrar no poema “Só Com Muito Vento” de Bruna Beber e outras duas instrumentais próprias que acabaram de levar todos para uma outra dimensão. Foi incrível.

#jupernocentrodaterra #juper #julianaperdigao #centrodaterra #centrodaterra2026 #trabalhosujo2026shows 246

Chrissie Hynde ♥ The Doors

E a Chrissie Hynde cantando Doors? Aconteceu neste fim de semana, quando foi transmitida a participação da eterna pretender no programa sueco På Spåret, que contava com a banda Yttling Jazz como atração musical da semana. Seu líder, o pianista Björn Yttling, que já havia trabalhado com Hynde ao produzir seu primeiro disco solo, Stockholm, de 2014, a convidou para cantar uma versão para o clássico “People Are Strange” e eu já fiquei cogitando um disco inteiro com essa colaboração – seja cantando só Doors ou músicas de outros artistas (como Belinda Carlisle, cujo hit “Heaven Is A Place On Earth” é citado no solo que Yttling faz no meio desta versão).

Assista abaixo:  

Mais fotos dos filmes dos Beatles, desta vez na fase Liverpool…

Só a beatlemania mais noinha explica esse masoquismo de sofrer de véspera a partir das fotos que vão aparecendo dos quatro filmes que Sam Mendes está fazendo sobre a história dos quatro de Liverpool. Já relevei até o fato do John Lennon ser um galalau se comparado com os outros, mas vê-los estáticos sem se mover como os Beatles dá uma sensação de estarmos assistindo a um episódio do Hermes e Renato com bom orçamento…

Veja mais abaixo:  

Dissipando a tensão

A tensão de uma semana pesada pairou no início do Inferninho Trabalho Sujo desta sexta-feira no Picles, como bem diagnosticou João Pedro Haddad do Eliminadorzinho, logo no início do show que abriu a noite – e o próprio baixista logo reforçou que a noite era pra desanuviar aquele clima pesado com o que o trio sabe melhor fazer: muito barulho. Mostrando músicas de diferentes discos – com ênfase no mais recente, Eternamente, do ano passado -, os três meteram o dedo na tomada desde o primeiro minuto, mostrando porque são uma banda de guitar rock da estirpe do indie rock dos EUA antes do Nirvana, ecoando Hüsker Dü, Dinosaur Jr., Sebadoh e, claro, Sonic Youth. É impressionante como o som da banda cresce ainda mais ao vivo, principalmente a partir do entrosamento redondinho entre o baixo de João Pedro, a guitarra de Gabri Elliott e a batera de Thiago Schützer, todos revezando-se nos vocais de cada música. Além de terem contado com a participação Nickolas Marchioretto no início do show, a apresentação ainda contou com um momento emocionante em que a guitarrista falou do peso da paranoia de um futuro governo fascista cai sobre todos nós, mas mais especificamente em seu caso, como mulher trans. Showzaço que lavou a alma de todos os presentes.

Depois do Eliminadorzinho, a Nevoara seguiu a noite com suas canções dramáticas que equilibram-se entre o math rock, cortesia do entrosamento entre a guitar heroine Duda Freitas e o baixista Felipe Mollo, e o emo, escancarado nas melodias cantadas pela vocalista Laura Mendes, todos firmes pelo pulso ditado pelo baterista Vitor Gonçalves. Com um entrosamento igualmente elétrico, o quarteto passeia por músicas que podem soar tão melódicas quanto pesadas, bebendo também no rock alternativo dos anos 90, do grunge em diante. O público cantava as músicas junto com eles, mesmo as que ainda não foram lançadas e devem compor seu disco de estreia, mostrando que a banda está no caminho certo.

#inferninhotrabalhosujo #eliminadorzinho #nevoara #picles #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2026shows 243 e 244

Inferninho Trabalho Sujo apresenta Eliminadorzinho e Nevoara @ Picles (9.10)

Em mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo no Picles, trago duas bandas pela primeira vez no palco da festa: o barulhento Eliminadorzinho e a eletrizante Nevoara. Os shows começam a partir das 22h e se você pegar o ingresso antes e chegar antes das 21h30 não paga pra entrar. Depois dos shows sigo discotecando na festa… Vamos? Pega os ingressos aqui.

#inferninhotrabalhosujo #eliminadorzinho #nevoara #picles #noitestrabalhosujo

Phoebe Bridgers em vídeo

Ao contar com o público para não registrar os shows da turnê de seu novo disco Lost Weekend em áudio ou vídeo, Phoebe Bridgers criou alguns efeitos colaterais desta decisão, como o fato de estimular que os fãs desenhem o palco como uma forma de ter um registro da apresentação e que todo material em vídeo ou foto que ela publique torne-se um evento em si. É o caso de mais um material em vídeo que ela lança em parceria com o diretor Lance Oppenheim, com quem ela trabalhou no filme Primetime (para quem ela também compôs a música “On Video”) e no clipe do primeiro single do novo álbum, “Lost Boys”. Agora ela vem com uma sequência de três músicas em vídeo, lançadas em parceria com a distribuidora A24, responsável pelo filme que os dois fizeram juntos, que além de trazer um registro para “On Video”, também reúne Phoebe com suas comadres de Boygenius Julien Baker e Lucy Dacus em outras duas músicas, “Haunted” e “Lost Boys”.

Assista abaixo:  

Quando um livro vira um disco

A transição de Rodrigo Carneiro para a literatura não o tirou da música. Por mais que o eterno vocalista dos Mickey Junkies esteja mais exercendo sua palavra – seja impressa ou falado – no mundo das letras, seu vínculo com a música é perene – e foi assim que o velho camarada Paulo Beto aproximou-se para verter um livro em disco, quando, juntos, transformaram o segundo livro de Carneiro, o pandêmico Afetos Sísmicos, em um disco com o mesmo nome, que será lançado no próximo dia 12 e surge no palco dois dias depois, quando os dois o apresentam gratuitamente no Sesc 24 de Maio a partir das 19h. E Carneiro antecipa um dos poemas musicados em forma de clipe – “Da Criação de Monstros (De Novo o Amor”) – em primeira mão para o Trabalho Sujo. “Desde o lançamento, em 2022, o livro só me trouxe alegria e o deleite se renova agora com o desdobramento dele em um álbum”, conta o poeta-vocalista. “E, que beleza, na companhia do meu camarada de tempos imemoriais, Paulo Beto, um sujeito cuja obra e a persona sempre me impressionaram.” PB explica porque escolheram esta música para começar a apresentar o disco: “Ela tem um veneno, um perigo”. E Carneiro arremata: “Se deixasse por mim, algum tema mais lacrimoso seria o eleito”, resume, antes de rir de si mesmo, “gótico suave, né?”

Assista abaixo:  

Uma caixa reunindo tudo que o Wilco e o Billy Bragg gravaram do Woody Guthrie

Há trinta anos, Nora Guthrie, filha do papa da folk music dos EUA, Woody Guthrie, descobriu várias letras que o pai havia deixado sem música e chamou o bardo folk inglês Billy Bragg para ver se elas poderiam transformar-se em canções e este, por sua vez, convocou o Wilco para acompanhá-lo nesta tarefa. O resultado, lançado em 1998, foi o soberbo disco Mermaid Avenue, que inclusive ajudou a consolidar uma nova cena folk dos anos 90 no cânone deste gênero musical, que ganhou um segundo volume no ano 2000 e um terceiro quando foi revisitada no formato caixa pela primeira vez, em 2012, no lançamento original de Mermaid Avenue: The Complete Sessions, que agora tem ela mesma uma nova versão expandida, com 17 novas faixas (basicamente versões alternativas e demos) e uma gravação caseira do próprio Woody tocando “Hesitating Beauty”, única das inéditas que o pai desta cena havia musicado. A nova caixa traz quatro discos, incluindo o quarto volume apenas com músicas inéditas (entre elas uma versão alternativa para “Aginst Th’ Law”, que foi liberada no anúncio do novo lançamento), será lançada no dia 11 de dezembro e já está em pré-venda. Estas gravações voltaram à baila porque o Wilco convidou Bragg para tocá-las pela primeira vez ao vivo em junho, na edição deste ano do próprio festival que a banda organiza, o Solid Sound. Resta saber se eles encaram pegar uma estrada com essas músicas… Imagina…

Ouça abaixo: