
Juliana Perdigão se propôs um senhor desafio – recriar o Cabeça Dinossauro dos Titãs em seu aniversário de 40 anos, materializado neste fim de semana no palco do Sesc 14 Bis. Reuniu um grupo de malucos pela música e pelo trabalho do ex-octeto paulistano que era um verdadeiro ataque aos sentidos. A banda formada por Alana Ananias (bateria), Mari Crestani (baixo), Moita Mattos e Vitor Wutzki (guitarras), Chicão (teclados) e Barulhista (eletrônicos) era encabeçada por Danislau (do Porcas Borboletas), Jonnata Doll, Sophia Chablau e a própria Juliana, que além dos vocais e de dirigir o show, batizado de Urro!, também desdobrava-se entre seus instrumentos de sopro. Tocada na ordem original do disco (como todo show em homenagem a um álbum deveria se prezar), a apresentação começou com a faixa-título abrindo a noite com um solo de bateria, que foi sendo incorporado lentamente pela banda até que os vocalistas entraram com os pedestais dos microfones erguidos como tacapes, repetindo o mantra agressivo da música de abertura que, sem pausas, foi emendada com a dadaísta “AA-UU”. Sem conversas com o público, o show seguiu emendando as músicas do disco, mantendo o clima austero e brutal e o recondicionando para 2026, com interferências de vanguarda que os Titãs não fizeram em 1986, mas que faziam parte de seu universo sonoro e artístico, como os solos de sola de sapato de Jonnata Doll antes de uma versão esticada para “A Face do Destruidor”, as interferências sonoras de Barulhista no início de “Polícia” ou “Família” deixar de ser um reggae. A movimentação do grupo no palco conversava diretamente com a performance da banda na época do disco (I was there…) e a luz forte de Olívia Munhoz – com o vermelho mais pesado que já vi num palco e o contraponto de cores intensas – inverteu o preto e branco da arte do disco para um universo visual gritante, que só aumentou a importância desta noite. E num Brasil em que ninguém lembra de “Bichos Escrotos” (não é bizarro isso?), esse show é urgente.
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O decano Neil Young anuncia mais um disco com sua atual banda Chrome Hearts e começa os trabalhos com a melancólica faixa-título de Second Song, um lamento de quase doze minutos que vem como um respiro que o velho canadense faz de sua campanha anti-Trump, da qual tornou-se adversário ferrenho. É o terceiro disco que lança à frente deste novo conjunto, depois do disco de estreia (Talking to the Trees, do ano passado) e de um disco ao vivo (As Time Explodes, lançado no início do ano) e deixa a eletricidade vivaz característica das composições mais recentes para abrir aquele seu clássico cômodo mental em que a introspecção, instrumentos acústicos e vocais sobrepostos tornam-se uma só sensação. Que beleza.

Um encontro entre duas das grandes forças da música contemporânea dos Estados Unidos foi registrado há dezoito meses mas só agora começa a vir a público, quando a cantora e compositora Erykah Badu e o produtor e rapper The Alchemist anunciam finalmente o lançamento da colaboração que gravaram há mais de ano entre as suas respectivas cidades, Dallas e Los Angeles. Ainda sem título, o disco (já em pré-venda) deve sair no fim deste mês e teve uma de suas faixas (sintomaticamente batizada de “Witch Doctor”) disponibilizada há pouco, dando um gostinho da fusão das magias destes dois monstros sagrados.

Neste domingo vou fazer a mediação da mesa É Possível Viver de Música Independente? dentro da programação de conferências da São Paulo Independent Music, que acontece na Casa Rockambole. A mesa também conta com a participação de Alê Sater (do Terno Rei), Phil Fargnoli (do CPM22) e Léo Ramos (do Supercombo) e começa a partir das 15h. Quer sugerir alguma pergunta?

Ainda digerindo o calhamaço emocional que é Lost Weekend da Phoebe Bridgers e não bastasse ela vir com 16 músicas para abalar o coração de 2026, ainda há uma décima sétima faixa escondida nas edições físicas do disco. “Best Dressed” é uma parceria com o ex-vocalista do Black Country New Road singer, Isaac Wood, que abrirá alguns shows da cantora norte-americana na turnê de lançamento do disco. Na edição em vinil, a faixa vem após a última canção do álbum, “ Lost Weekend (Reprise)”, mas no CD, se você segurar o botão para voltar a música logo no início da primeira canção, “The Outside”, o contador de tempo retrocede negativamente até revelar que há uma faixa antes da faixa de abertura. Muito bom ver que ela soube temperar um disco com muitas camadas com outras tantas pistas escondidas espalhadas por aí (como um texto em alto relevo na edição em vinil ou a forma que o encarte brilha quando posto sob uma luz negra). E não deve terminar por aí…

Outro disco inacreditável que saiu nesta semana é o quarto álbum do rapper baiano Vandal. Ou primeiro, já que ele mesmo chama seus discos anteriores de mixtape e transforma seu novo Vanguardah em um monumento à fusão de música urbana que vem praticando na última década. Dirigido por Russo Passapusso e produzido por Tiago Simões, o novo disco funde suas habilidades como MC – o baiano é pioneiro do grime e do drill, variantes radicais e pesadas do rap – com grooves de rua baianos, como o samba-reggae e o pagodão baiano, além de envernizar o disco com a presença do maestro Ubiratan Marques e sua Orquestra Afrosinfônica, primeiro astro de um time estelar de colaboradores no álbum, que vai do próprio Russo a Josyara, passando por Livia Nery, Giovani Cidreira, Hiran e KL Jay, entre outros (além dessa capa absurda!). E já desponta como um dos grandes discos brasileiros de 2026. Ouça agora.

A colaboração entre os B-52’s e David Byrne parecia ser uma combinação dos sonhos em 1981, quando o líder dos Talking Heads foi incumbido de produzir o terceiro disco da banda new wave, que estava em ascensão. Mas na prática, o que poderia ser um disco memorável acabou resultando num trabalho apressado, reduzido a um EP batizado Mesopotamia com apenas seis faixas, lançado no início de 1982. A gravadora Rhino resolveu contar a história por trás deste disco e lança na semana que vem a caixa com 3 CDs e um LP chamada Ancient Culture: Mesopotamia, que desenterra faixas que não entraram no disco (como “Big Bird”, “Adios Desconocida” e “Queen Of Las Vegas”), apresenta uma nova mixagem para o disco original, traz novos remixes e a gravação de um show no Roseland Ballroom de Nova York no dia 19 de abril de 1982, batizado de Meso-America. Veja a relação das faixas abaixo:

Eis mais um single da compilação de gravações que David Bowie fez antes de assumir seu pseudônimo artístico definitivo e estabelecer-se como um dos grandes nomes da história da música contemporânea. The Shel Talmy Recordings (já em pré-venda) será lançada no mês seguinte e traz registros oficiais que Bowie fez com outros nomes artísticos (como Davie Jones & The Lower Third, The Manish Boys ou Davie Jones), além de músicas que só estão vendo a luz do dia graças a esse novo lançamento. É o caso da demo de “Today”, música que nunca passou desse estágio, que é o segundo single tirado da coletânea, cuja primeira amostra foi o single de “I Want Your Love”. As músicas foram gravadas pelo produtor que deu a origem fonográfica à cena mod inglesa, Shel Talmy gravou os primeiros singles do Who (“My Generation”) e dos Kinks (“You Really Got Me”) e há registros que incluem a participação de músicos ingleses conhecidos por trabalhar em gravações alheias, como o tecladista Nicky Hopkins e o futuro fundador do Led Zeppelin Jimmy Page. A música nova não empolga tanto quanto a anterior, mas é mais uma prova que, além de ser um dos grandes nomes da história do pop, Bowie trabalhou bastante para conseguir chegar a este panteão.

Music Fashion Film da Charli XCX continua sendo o assunto do momento e por isso resolvemos seguir nesta mesma toada, com mais uma edição da festa Agora Agora dedicada ao universo deste álbum. Enquanto a artista encabeça festivais pelo mundo antes de começar sua própria turnê, voltamos ao imaginário que mistura música, cinema e moda em preto e branco para fazer todo mundo dançar essa estética, desta vez na Porta, em Pinheiros. A casa, que fica no número 95 da rua Horácio Lane abre a partir das 18h e a festa começa a partir das 20h, sem hora pra acabar. E dessa vez – é verdade, precisamos ser honestos – nem precisa comprar ingresso, é só chegar.
#_agora_agora